HISTÓRIAS E FATOS DA FAMIGLIA

Para conhecermos ou relembrarmos como simples e gostosa era a vida até a metade do século passado, é que vamos transcrever diversas historias que marcaram e ajudaram a formar a cultura, religiosidade e os costumes de nossos ancestrais.

01 - MINHAS FÉRIAS NA CASA DO NÔNO

Não tenho uma memória muito boa, mas não posso esquecer quando era ainda um guri, num período que tinha entre 8 a 14 anos e que passava na casa do NONO, era aí por volta do final da década de cinqüenta e começo da década de sessenta.

Meu pai, nesta época se aposentara por estar com problemas de saúde, e nossa família veio novamente residir no Bairro Pinheirinho, em nossa antiga casa, próxima à estação ferroviária, bem ao lado do pátio de estacionamento e manobras dos vagões.

Quase todo ano, eu passava alguns dias, durante as férias escolares, na casa do Nono que sempre morou no Bairro Mina União, mas que entre os antigos italianos era chamado de Morro da Miséria. Ele morava junto a estrada, no começo da subida do morro.

Morava numa enorme casa de madeira, sem pintura (que parte dela atualmente é o “Museu do Imigrante” e que foi transferida para o “Parque Ecológico José Milanez” e que está localizado no que era os fundos do terreno onde morava) e, que em seu corpo principal contava com uma grande sala central, ladeada por quatro quartos e um sótão.

Havia ainda a parte de trás da casa, que antigamente era separada desta primeira parte, onde havia uma grande cozinha com um fogão de tijolos, onde um enorme gato preguiçoso, vivia dormindo junto a boca do forno, forno este que era utilizado para fazer os assados da casa. Na lateral da cozinha havia uma pequena dispensa, onde guardava-se os mantimentos, queijos secos, etc.

O intervalo existente entre o corpo principal e a cozinha foi coberto num determinado tempo, formando assim um corredor, que de um lado dava para a rua e do outro levava para a “área de serviço” da casa.

O principal uso deste espaço, era a existência de uma tábua pendurada por cordas ao forro, encostada em uma das paredes e que era usada para escorrer e secar as peças de queijo que eram feitas pelas tias.

Estas “áreas de serviços” que me referi acima, nada tem de parecido das que temos hoje nos nossos apartamentos ou casas.

Se, hoje em nossas minúsculas áreas de serviços, temos modernas e caras máquinas de lavar e secar roupas, que estão sempre quebrando, além de um pequeno tanque e uma tábua para passar estas mesmas roupas, naquela época as “áreas de serviços” eram enormes salas onde se guardavam os capotes, as montarias, e se guardava as máquinas de uso doméstico, tais como, máquina de moer carne, máquinas de fazer macarrão, balança de corrente, roca para se fiar o algodão e a lã (já não muito usada na época em que eu vivi esta narrativa), tear para se tecer, (onde a nona fazia tapetes de chão com os retalhos dos tecidos usados pela Tia Albina na confecção de peças de roupas) e outros apetrechos domésticos.

Ah! Ia me esquecendo, dentro do cercado da casa, havia na frente da casa um belo jardim onde predominava grandes roseiras, além dos gerânios e bambus de salão. Nos fundo um poço com uma bomba manual de puxar água, que era levada até a caixa d’água, e que abastecida uma torneira na pia da cozinha e um chuveiro ao ar livre, o que era uma novidade para uma casa colonial, naqueles tempos.

Ali viviam além do Nono Beppi e da Nona Maria Dário, as três “Tias Solteironas”: Catina (Catarina), Santa e Albina a mais velha, e que era a costureira da família, que junto ao seu quarto tinha um “Ateliê de Costura”, onde eram feitas as camisas, calças, vestidos e todas as roupas usadas pela maioria dos membros de nossa família.

A compra desta máquina de costura da marca Singer custou para a família 150 sacos de arroz em casca.

Eram também de confecção caseira os travesseiros e peneiros que aqueciam as noites frias e que eram feitos de penas de gansos, os cobertores e casacos confeccionados em lãs, os lençóis e toalhas em algodão, além dos colchões em palha de milho bem desfiada.

As roupas de uso diário eram feitas tecido de riscado e lavadas duas vezes por semana (2ª. e 5ª.feiras) e não eram passadas à ferro. As roupas de missa eram confeccionadas em tecidos mais finos e eram passadas à ferro a brasa.

O Nono Beppi era filho do Giovanni e neto do Andréa, e chegou ao Brasil com apenas 18 meses de vida, sendo uns dos imigrante mais novo que fundou a nossa cidade de CRICIÚMA.

A nona Maria Dário era filha do imigrante Demétrio e chegou no Brasil com 6 meses de idade.

Além do casal, morava as tias solteiras: Albina, Catarina (Catina) e Santa e junto deles morava nosso primo Vitório Benincá (filho da Tia Augusta e casada com Antônio Benincá, residentes na Primeira Linha), que desde muito jovem, sempre morou com os nonos e juntamente da tia Carmela (que era a filha mais nova e professora) e por terem estudado até o segundo grau, eram os grandes intelectuais de toda a família. E eles faziam jus ao título.

A casa era construída sobre um terreno com uns trinta hectares e que era todo recortado. Nos fundo dele, pelo lado sul, (o terreno era no sentido norte/sul) havia um bosque ainda composto de mata virgem da época da pré-colonização e que hoje constitui o Parque Ecológico José Milanez. Em seguida existia uma boca de mina, pertencente a Carbonífera União, que naquela época era de propriedade do imigrante espanhol José Contin Portella.

CASA DE GIUSEPPE MILANESE NA LOCALIDADE DE MINA UNIÃO, NA ESTRADA DO MORRO DA MISÉRIA. CRICIÚMA - SC - BRASIL

Lembro-me muito bem que em muitas tarde o Nono ouvia sons de pessoas cortando madeira, e lá ia ele em direção ao mato para expulsar as pessoas que estavam tirando lenha para queimarem nos fogões caseiros.

Após a faixa de terra pertencente à mina vinha um grande potreiro, onde estava construída a casa de moradia, bem como outras benfeitorias: a patente (a uns cem metros da casa), o galinheiro, um grande paiol com porão, onde em baixo, tinha as estrebarias e espaço para se guardar as máquinas agrícolas (arado, carro de boi, aranha, etc).

Havia também uma área cercada para o quintal da casa e outra maior para a chácara e uma plantação de cana e outra de aipim. Tinha também os chiqueiros, onde havia sempre uns três porcos engordando para o abate.

Depois vinha a estrada geral que subia ao Morro da Miséria, e que levava do outro lado rumo a serra no Caravaggio.

Após esta estrada, tinha então outro grande potreiro onde o gado e um cavalo ficavam durante o dia, já que à noite passavam para o pasto da casa.

Em casas próximas moravam dois tios (Tibélio e Bonfilho), e um pouco mais adiante do caminho do morro outros dois (Carmela e Santo).

Era neste ambiente e clima bem familiar que eu passava quase que todos os anos, uma semana ou um pouco menos para descansar e brincar com os primos, primas e os filhos dos Manente e Dário, que moravam vizinhos.

Nos fins de tarde juntavam-se uns quinze a vinte meninos, para correr atrás de uma bola. Eu sempre era o pior, mais fazer o que, ao menos me esforçava bastante.

Quando era para fazer a escolha dos dois times eu sempre ia de contrapeso para o time considerado mais fraco.

Era uma judiação que faziam comigo, que além de ruim era o único que não jogava o ano inteiro, pois morava o restante do ano fora daquele ambiente.

Os bate-bocas e pequenas confusões e discussões eram diárias, ou melhor, eram várias no mesmo dia. Às vezes jogava-se até não se ver mais a bola, noutros até que algum tio ou tia chamasse para casa seus filhos. E todos iam para casa cansados, mas em paz e felizes.

Brincava-se muito também de se descer uma encosta de um pequeno morro que existia no terreno, sentado em uma canoa de tala de coqueiro. Eram assim todas brincadeiras simples, onde não existiam os brinquedos eletrônicos, vídeo game, carrinho com controle remoto, boneca barbie, etc.

Durante o restante do dia faziam-se muitas outras coisas, mais uma eu nunca esqueci, pois deixava todos muito alegres: juntar bostas no potreiro com ajuda de duas pás de juntar e um velho carrinho de mão construído em madeira. Juntava-se quatro ou cinco primos/primas e lá íamos nós a fazer a tarefa. Cada um trabalhava um pouco, para levar o carrinho era uma briga, todos queriam. A Valdete, que era a mais mandona, organizava a desorganização, fazia a escala, e não se falava mais nisso e tudo terminava bem, e as bostas iam parar na esterqueira.

“Cera su ch’ela finestra” (fecha a janela), “stai chietto tozzati” (fiquem quietos meninos), “adeso abbiano di magnar”(agora vamos comer), “porta me via la manera” (traga-me o machado) dava ordens o Nono e logo vinha a tia Albina, carinhosa e atenciosa traduzindo para o português para que nós soubéssemos direito quais as ordens recebidas, para cumpri-las rápido e bem feito.

A comida era caseira. De manha café com leite, pães. bolachas, salame, queijo, nata, fortáia (omelete), e em alguns dias também a polenta. No almoço havia, arroz, polenta, fortáia, queijo, salame, galinha ensopada e verdura e legumes. À meia tarde um outro café com leite, pães e bolachas, nata, doces de alguma fruta. A noite comia-se uma minestra de feijão e arroz, com queijo, salame, ovos, etc. Praticamente toda esta comida eram colhidas nas roças feitas pelas Tias Santa e Catina. Comprava-se nesta época, apenas o sal, açúcar, farinha de trigo, café e arroz.

Após a janta, era rezado o terço. Reuniam-se todos na sala, e quase sempre ainda tinha algum neto das redondezas na casa e todos começavam na reza, mas nem todos iam até o fim, muitas vezes nós dormíamos antes do mesmo terminar. A religiosidade nas famílias dos imigrantes era uma tradição.

Com certeza esta prática da reza do terço, era muito melhor que a praticada na maioria de nossos lares nos dias de hoje, em que ficamos assistindo na TV estas novelas desavergonhadas da “Globo” ou dos outros canais.

A devoção a Nossa Senhora e aos Santos eram sempre muito forte. Havia em quase todas as casa um quadro com a Sagrada Família, A Última Ceia, Nossa Senhora e de alguns Santos.

Outro costume dos imigrantes era o batismo dos recém nascido já nos primeiros dias de vida. Havia muito receio que a criança poderia morrer repentinamente sem ter recebido o Sacramento do Batismo, o que pesaria na consciência dos pais. Neste caso quando o falecido não era batizado ou católico, era sepultado fora da área oficial do cemitério, e sua alma ficava eternamente vagando no limbo.

Enquanto o batismo era providenciado rapidamente, o registro civil normalmente era feito sempre muito tempo depois e eram comuns erros nas datas e nos nomes nos registros de nascimento de algum membro da família.

Eram realmente dias muito felizes, onde aprendemos muito da antiga cultura, o respeito pelos mais velhos e as tradições dos nossos imigrantes, seus costumes, seus hábitos alimentares, suas roupas, a maneira de manifestar suas tradições e fé, a honestidade e seriedade que era norteado o relacionamento entre as pessoas, pena que se vai crescendo e nos envolvendo com um monte de coisas perigosas, preocupações, que em vez de felicidade muitas vezes nos trazem tristezas, depressão, etc.

Hoje. ficamos alienados aos nossos serviços, com a cobrança que a sociedade nos faz de sempre estarmos adquirindo novos produtos, cuja necessidade são na maioria das vezes no mínimo duvidosas e nos são impostas pelos meios de comunicação, através de uma eficiente e maciça exploração publicitária.

Este nosso apego às coisas materiais nos fazem esquecer quanto a natureza é bela, harmoniosa e pura. Onde necessitamos tão pouco para viver e ser verdadeiramente felizes e plenamente realizados. Onde o relacionamento entre as pessoas é guiado principalmente pelo servir ao próximo e não se servir do próximo.

02 - AS FESTAS RELIGIOSAS DA REGIÃO.

Se hoje em dia, os acontecimentos que a sociedade promove para se mostrar e exibir suas riquezas, são os lançamentos de novos edifícios, as festas de 15 anos das meninas moça, os grandes bailes de debutantes, e as solenidades de casamentos, todos programados com grandes suntuosidades e pompas.

Antigamente, entretanto, estas oportunidades eram reduzidas praticamente, a festas religiosas que aconteciam anualmente nas diversas localidades, para se comemorar o Santo padroeiro da Capela do lugar.

Apesar da simplicidade, era a oportunidade que moças e rapazes tinham de se mostrarem e se verem, num desfile de elegância e beleza.

Pelo que me lembro, nossa família costumavam ir as festas de Santo Antônio, Santa Augusta, Santa Luzia, São Roque, nas localidades dos mesmos nomes e Nossa Senhora das Graças no bairro Pinheirinho e logicamente do Morro da Miséria, onde morava meu nono, onde se comemorava Nossa Senhora da Saúde.

Eu particularmente além das festas do Pinheirinho e do Morro da Miséria, lembro-me bem das festas de Santa Augusta, que eram uma das maiores em quantidades de participantes.

As festas eram praticamente iguais em todos os lugares. Antecediam as festas Tríduos Solene, que eram celebrados nos três dias (quinta, sexta e sábado) ou nos três sábados anteriores ao domingo festivo.

Antigamente no “tríduo”, era apenas rezado o terço, porque o Padre não dispunha de recursos para estar no local da Festa e Celebrar a Santa Missa nos três dias. Mais adiante, na década de 1950, passou-se a ter Celebração da Santa Missa todas as noites.

A preparação da Festa começava no dia da última festa. Nesta ocasião se escolhia o festeiro para a próxima Festa. O escolhido, chamado de Festeiro, normalmente um dos moradores de melhores condições econômicas da localidade, faria toda a programação, organização e garantiria a realização da Festa.

Ficava ao seu encargo decidir e providenciar quais as barracas seriam montadas para a Festa, e se a festa contaria com alguma atração extra.

Para as capelas que dispunham de salão de festas, eram organizados algumas vezes bailes nos sábados à noite e sempre domingueiras para as tardes de domingo, normalmente iniciando-se entre 15 e 16:00h, terminando por volta das 19:00h.

Na semana da Festa, acontecia um grande mutirão entre os moradores da comunidade para providenciarem tudo o que se fizesse necessário.

Limpava-se mais rigorosamente a Igreja. Montavam-se as diversas barracas, abria-se um valo na terra e ao seu redor levanta-se um murro de tijolos sobrepostos para se assar a carne do churrasco e cobria-se com lonas, construíam-se rústicas mesas, ladeadas de bancos no mesmo padrão, também cobertas com lonas.

A Festa acontecia propriamente apenas no sábado e domingo. Eram movimentadas as barracas, onde havia roletas, pescarias, vendas de bebidas, onde tínhamos cerveja, e a gasosa era a grande vedete da festa e preferida dos compradores e também vendas de comidas onde encontrávamos, churrasco e pão.

Freqüentavam a Festa famílias inteiras. Era o casal e quatro ou cinco filhos, às vezes mais.

Os jovens e moços, já em busca de espaço próprio se desgarravam dos demais familiares e se juntavam em grupos para bater papo e olhar para as moças, e vice e versa.

Os moços vestiam ternos de linho branco, que de tão engomado mais pareciam que eram feitos de tecido de lona. Os cabelos eram penteados para trás. E para garantirem que ficariam sempre bem assentados usavam brilhantina à vontade.

As moças trajavam vestidos de seda ou cetim normalmente estampados com florzinha e de fundo claro, tudo muito colorido, com o comprimento de quase um palmo além do joelho, de pregas e gola do mesmo tecido, poderíamos dizer que seriam elegantes até nos dias de hoje. Traziam os cabelos penteados, sempre bem presos com grampos e passadeiras.

Vez por outra um casal se desprendia de seus respectivos grupos e iniciava-se ali um novo namoro, sempre acompanhado à distância das respectivas famílias.

Para muitos desses namorados, estas Festas eram as únicas oportunidades de tinham para se encontrarem, daí a grande vontade de não perderem nenhuma das festas da redondeza.

Na hora o almoço nossa família se reunia num canto de mesa ou à sombra de alguma figueira nas proximidades, para nos fartarmos com o almoço diferente do cotidiano.

Nosso pai adquiria um churrasco, duas ou três gasosas e meia dúzia de pães. Ao redor desta comida, banqueteávamos e brigávamos para receber um naco maior de carne e um pouco mais de bebida, que para nós eram um manjar dos deuses.

No final, ficávamos todos felizes de ter comido tão bem e tão diferentemente dos outros dias do ano.

03 - O DIA EM QUE A MINHA MINA PAROU

Na segunda metade da década de 1950, nossa família foi morar no Bairro Mina União. Nosso pai acabara de comprar a casa de nosso nono materno AFONSO ZANETTE, que havia ido morar em 1954, com quase toda a família no norte do estado do PARANÁ, que começava a ser desbravado.

Era um terreno com uns 15 hectares de terra, onde havia duas casas de madeira próximas uma da outra, sendo que a maior e mais velha e não muito boa, nós fomos morar. A menor, um pouco melhor, morava a tia Vitória, casada com o Astor Réus, com os filhos mais velhos que já tinham nascido na época.

O nono AFONSO, enquanto morava aqui, trabalhava na padaria Brasil, vendendo pães com uma carroça própria para este fim, fotografia do início da década de 1950.

Lá iniciei meus estudos no primário, deveria ser o ano de 1947 e morávamos uns três quilômetros da escola.

A Maria Eli e eu saíamos de casa bem cedo, atravessávamos o potreiro na frente de nossa casa com uns quinhentos metros de distância, cruzávamos um riacho passando sobre uma pinguela muito pouco confiável e caminhávamos um belo trecho por sobre a linha férrea, enfrentávamos os cachorros da Dona “Rodinha”, que morava numa casinha muito modesta na lateral dos trilhos, depois fazíamos um pedaço de caminho por um carreiro em meio às samambaias e ganhávamos então as ruas já na vila dos operários, próximo da escola.

A Dona Rodinha, não sei porque deste apelido, nem tenho a menor idéia qual poderia ser seu verdadeiro nome, era uma senhora na faixa dos sessenta anos de idade, muito miudinha. Seus cachorros eram dois vira-latas pequenos, mais que percebendo nosso pavor aos mesmos, ficavam momentaneamente valentões, enquanto passávamos defronte à casa da referida Senhora. Sempre que chegávamos próximo a este ponto do caminho, nos armávamos com uma varinha de eucalipto para nos defender dos ataques traiçoeiros dos vira-latas.

A partir do segundo semestre da escola, eu já estava apto a fazer o percurso sozinho, e ainda todas às tardes levava o café para o meu pai que trabalhava na mina, a uns quinhentos metros da escola onde nós estudávamos de manhã. Meu único problema continuava a ser os cachorrinhos da Dona Rodinha.

Meu pai era apontador ou feitor da mina, como se costumava chamar. Tinha ao seu encargo a tarefa de anotar quem faltava no trabalho, quantos vagonetes de carvão cada dupla de mineiro extraía do sub solo diariamente, preparar as bananas de dinamites, para os foguistas dar “fogo” nas frentes de trabalho nas galerias da mina, etc.

A todas estas tarefas eu o acompanhava e ajudava-o com grande interesse, principalmente na reparação das dinamites, que consistia em armar as bananas de dinamites com um cabo de estupim e um detonador na ponta, que eram enterrados nas bananas.

As casas dos mineiros eram todas iguais, construídas em madeira, de pequeno tamanho, sem pintura alguma, enegrecidas pelo tempo. Eram construídas umas próximas às outras, sem nenhum cercado entre elas e num terreno de chão batido, onde não havia nenhuma vegetação.

As mulheres ficavam nas janelas de suas casas a maior parte das tardes tagarelando com as vizinhas, já que nas manhãs ainda tinha algumas atividades domésticas, como arrumar e limpar a casa, preparar o almoço etc.

Destas conversas inúteis, muitas vezes resultavam em discussões e desavenças que acabavam envolvendo os próprios maridos, quando esses retornavam do serviço.

Se fosse em nossos dias, com certeza estas conversas seriam direcionadas a debater os capítulos das novelas assistidas na noite anterior e por certo não aconteceriam tantas brigas na vila, entretanto, naquela época televisão era uma palavra que não se conhecia e só começamos a assisti-la quase na metade da década de 1960.

A comida basicamente consistia em café sem leite e pão de manhã, e no almoço e na janta feijão e arroz com algum tipo de carne. Consumia-se muito pouco de verduras, legumes, leite e seus derivados. Enlatado na época era só a sardinha e a marmelada, mas mesmo assim só as classes mais ricas as compravam.

As crianças que não estavam em idade escolar, ficavam o dia inteiro vagando de um lado para o outro sem ter o que fazer, elas brincavam com bolinhas de vidro, bilboquê e pião, o mesmo acontecia com os mais velhos, e que não estavam ainda empregados na mina. As brigas eram comuns entre a gurizada.

O chefe da família trabalhava na mina, e os demais membros não tinham nenhuma outra fonte de renda, mesmo sendo às vezes moços ou moças já em idade de trabalho.

Os moços aguardavam uma oportunidade de emprego na Cia. Mineradora, para depois casarem, e as moças esperavam a oportunidade de se casarem.

Estudavam normalmente até completar primário, que era de quatro anos letivos. Era uma vida sem maiores ambições e de uma pobreza cultural enorme.

O clima entre os moradores da vila operária desta forma nem sempre era dos mais amistosos. Também entre os empregados e o patrão sempre tinha um clima de desconfiança e animosidade.

O sindicalismo forte existente na região fazia com que os embates entre empregados e patrões fossem uma constante, e as greves não coisa rara.

Às vezes estas greves causavam grandes tumultos nas bocas de mina e também na cidade.

Numa manhã cinzenta, saímos de casa no horário de costume para chegarmos até a escola. Tão logo adentramos na vila dos operários já percebemos que o ambiente não estava normal. Havia um clima de medo e revolta no ar.

As casas que normalmente naquele horário estavam com as janelas abertas, naquela manhã permaneciam todas fechadas e não víamos movimento de pessoas nas ruas.

Vez por outra ouvíamos homens gritando forte: “GREVE”, “GREVE”. Apesar disto, não víamos ninguém.

Mesmo com medo, continuamos no caminho até chegarmos na escola.

Lá mais demonstração de anormalidade. Poucas crianças estavam no pátio ou corredor da escola.

As professoras recebiam os alunos na entrada do corredor e explicavam que os mineiros estavam em “GREVE” e que para evitar que os alunos pudessem ser atingidos em alguma manifestação dos grevistas ou dos repressores da greve, mandavam os mesmos para casa e que só retornassem quando a greve houvesse terminado.

Foi neste ambiente físico e cultural, meio às avessas dos costumes de uma família de tradicional de descendentes de imigrantes italianos, que comecei meu ciclo de formação escolar.

Embora morássemos já numa zona rural, este ambiente teve alguma influência na minha formação.

No final do segundo ano, fiz também minha primeira comunhão, na velha capelinha no Morro da Miséria, creio que foi a última turma, pois passado algum tempo foi inaugurada a nova capela, construída ao lado da escola, sobre um terreno doado pelo meu nono, Giuseppe Milanese.

Morávamos na Mina União na antiga casa que pertenceu ao nono Afonso Zanette e que em 1954 havia se transferido com quase todos os filhos, mesmos os já casados para o norte do Paraná, que começava a ser colonizado naquela época.

O meu pai adquiriu a propriedade e fomos morar lá. Era uma casa não muito boa construída sobre um terreno com uns oito hectares e que em 1957 ou 1958 foi comprado pelos mineradores, para construírem a Cidade Mineira.

Tinha um potreiro, onde nosso pai tinha umas duas vacas e um cavalo que com uma aranha, era o meio de transporte da família. Tínhamos sempre uma pequena plantação de aipim para consumo e uma chácara com velhas laranjeiras e um pequeno quintal.

Em 1958 voltamos a morar na casa do Bairro Pinheirinho, próxima da estação de desembarque da estrada de ferro. Ali ficamos mais uns cinco anos e saímos novamente para morar no atual Bairro Milanese, para depois retornar para morar na mesma casa do Pinheirinho, mas isto já é outra história. Dos tempos da Mina União era isto.

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