HISTÓRICO DA FAMÍLIA MILANESE

As colinas que originaram o apelido "Dei Coi" como eram conhecidos os nossos antepassados, em Sarmede, província de Treviso, Itália, eram de propriedade de um senhor de sobrenome Panegai, que posteriormente vendeu a mesma a Bortolo Polonio.

Eram três campos de terra, pouco mais de dois hectares com a casa e benfeitorias.

Bortolo teve cinco filhas, nenhum homem. Decidiu procurar um empregado para ajudar a família a trabalhar na agricultura, pois considerava a área da terra um pouco grande para ser cultivada só por ele e pelas filhas.

Resolveu ir a Milano e lá conseguiu um jovem de nome Francesco que aceitou o emprego e veio trabalhar com ele. Depois de passados alguns anos ele acabou casando com uma das filhas do patrão. A única das cinco que casou-se, por conseguinte e como é obvio ele herdou a propriedade, "as colinas" e ficou sendo conhecido como o Milanese "Dei Coi".

Este esclarecimento torna-se necessário para a identidade da origem do nome porque não fora isso o sobrenome indicando cidade, no caso, Milano, naturalmente seria dado a pessoas de outra raça, que habitualmente costumam dar o sobrenome de cidades e não da raça italiana.

Francesco teve três filhos homens e nenhuma mulher, certamente porque o destino havia dado cinco filhas ao sogro.

Aos filhos ele deu o nome de Bortolo, o primeiro, com certeza foi em homenagem ao avô materno; Domênico e Giovanni, este último era chamado de "Gianni Mat", louco.

Curioso que meu tio, irmão de meu pai, aqui, também o chamavam de "Gianni Mat", porque era muito espirituoso, brincalhão, vivaz e tinha um coração de mãe. Nenhum dos dois teve filhos. O italiano foi "partiggiano", militar que lutou dez anos na Guerra contra a Áustria, morreu solteiro, deu peritonite causada por uma ferida em uma das pernas, exatamente o mesmo aconteceu ao meu pai e ao meu avô.

Casualidade ou Hereditariedade?

O Domenico teve um único filho, Andrea, meu Bisavô, que veio para o Brasil com 74 anos, este teve dois filhos, casados que o acompanhou, com as famílias, Giovanni, meu avô e Giácomo.

A casa adquirida do Penegai ainda existe e lá ainda moram os Milaneses, os mesmos quais visitamos em 1958.

Como nos passaportes dos Milaneses que vieram para cá, consta que moravam em Cordignano, na primeira vez que os procuramos, chegando a Treviso, capital da Província, fomos a Prefeitura para saber se em Cordignano ainda residia alguns dos nossos parentes.

Em mais ou menos cinco minutos consultaram nos livros e nos informaram que lá não moravam ninguém mais da família. Todos haviam saído para a América, conforme os passaportes, há muitos anos. Informaram também que eles não eram naturais de lá, e sim de Sarmede, onde os descendentes dos nossos antepassados ainda moravam, e que casualmente dois irmãos, Emílio e Mário, nascidos na mesma casa, tinham mudado para aquela capital e moravam na Rua Del Capitelo, nº 77, hoje Rua Del Timavo, nº 21.

Dirigimo-nos em seguida a este endereço e lá estavam nossos parentes. Não dá para descrever a emoção e alegria que sentimos, tanto nós quanto eles. Exclamavam: Vejam, vejam que milagre..! Os nossos avós diziam que um ramo da nossa família havia ido para a América, mas não tinham dado mais notícias e nem sinalde vida. Certamente havia acontecido um desastre. O navio tinha ido ao fundo, sem sobrar nenhum sobrevivente ou haviam sido mortos pelos índios ou as feras haviam matado ou devorado.

A esta altura tentamos justificar a lacuna, informando-os que com certeza não mandaram notícias, porque naquela época, para colocar uma carta no correio ou passar um telegrama, tinham que viajar 82 quilometros, de Cricuíma, via Pedras Grandes Tubarão, à cidade mais próxima que tinha correio e telégrafo.

Para chegar até lá precisava andar 25 quilometros a pé, mais uns 30 quilometro a cavalo ou de carro de boi e mais uns 30 de trem. Este trecho de trem só ficou pronto 4 anos depois de chegados aqui. Além do sacrifício da viagem tinham que perder uma semana de serviço. Eles não se conformavam de maneira nenhuma que tivesse que ser assim, claro, lá era bem diferente. Como puderam sobreviver num deserto assim e tão abandonados, exclamavam! Depois diziam: "Mas vejam só, vocês tem mesmo que ser parentes porque falam exatamente iguais a nós"...! Dialeto Veneto.

No dia seguinte nos levaram a sarmede, cerca de 66 quilometros de Treviso, exatamente na mesma casa onde nasceram os nossos avós e bisavós. Ali moravam Constantino, Silvio, Danillo e famílias. Vivemos outros momentos de indescritível alegria e satisfação, maior que no dia anterior porque eram muito mais parentes. Depois de dois dias de estada, indagamos porque constava nos passaportes, que os nossos antepassados tinham saído de Cordignano, "San Cassan" e a resposta foi a seguinte: "Quando o vosso bisavô Andrea constituiu família, o pai Domênico comprou-lhe três campos de terra, cerca de dois hectares, e em seguida ele mudou-se para lá, permanecendo até a ida para a América". Não distingue as duas Américas. América do Norte e América do Sul.

Agora uma curiosidade e coincidência feliz: "São seis quilometros daqui, prosseguindo, hoje nós vamos até lá visitar o sítio, que é nosso. Depois de sessenta anos que o seu bisavô havia vendido a propriedade, nós a compramos novamente. Temos um agregado que paga-nos a renda até que alguém de nossa família decida ir morar lá". Isso também foi motivo de muita alegria, o sítio voltou a ser propriedade de membros da mesma família. Na chegada apresentaram-se ao agregado e este ao ouvir que éramos parentes do Brasil, ficou um pouco embaraçado e perplexo, perguntando se de fato éramos brasileiros, naturalmente, sempre falando o italiano.

Diante da nossa resposta afirmativa, nós também perguntamos por que desejava saber. "- Porque eu morei 40 anos em Santos, São Paulo" - respondeu! Observem como este mundo é pequeno. Seria desnecessário dizer que naquele momento em diante passamos a falar nosso dócil idioma português.

Quando da vinda dos nossos avós, antes e depois, vieram vários Milaneses para São Paulo, de onde se espelharam para quase todo o País, principalmente Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Teresina e outros Estados. Juntos vieram uns que foram para Guaporé e de lá, alguns foram para Porto Alegre e Canoas.

Em São Paulo teve a pensão "João Milanez" na rua Libero Badaró, que funcionou até 1942, aproximadamente. No Rio, a rua Sete de Setembro, próximo à avenida Rio Branco, o finado Fernando tinha o cartório e o sobrinho dele, de João Pessoa, também Fernando, é tabelião, deputado estadual e chefe da Casa Civil do Governo do Estado. Em Belém do Pará, o Francisco é distribuidor de medicamentos. Outros foram para a Argentina e de lá, alguns para o Uruguai. Em Montevideu, o Pedro é notário. Outros foram para os Estados Unidos. Em New Jersey, Clifton, mora o professor Lincoln e irmão Albert, filhos do finado Romano, nascido em Sarmede, na mesma casa dos nossos avós, e para não alongar mais, em Los Angeles mora o Rubens. Na Itália também mudaram-se para vários lugares. O Renzo é Chefe da Casa Civil do Vaticano. O Sérgio e outros moram em Borgo Faiti. O Rugero mora em Latina e outros em Stra, Vigo Novo, Cordignano e assim por diante.

Eis aí um pouco da história da FAMÍLIA MILANESE.

Visita Honrosa de Parentes

Um dia, em 1917, deparei-me com uma troca de mulas que vinha subindo o morrinho em direção a nossa casa. Fiquei tudo eufórico, porque gostava muito de pinhão e pensava que eram tropeiros, que costumavam trazer queijo e pinhões para vender.

Corri à procura da mãe para avisá-la de que estavam chegando os serranos.

Todavia, tive uma grande e grata surpresa: Eram os Milanez, parentes nossos que vinham de Guarporé, Rio Grande do Sul para visitar-nos, no lombo das mulas, único meio de transporte na época, além do carro de Boi.

Depois de passados 37 anos que haviam se separado, no Rio de Janeiro, quando vieram da Itália, foi realmente uma grande festa para toda a família, avô, avó, tios, todos estavam muito contentes. Pena que o bisavô e bisavó, infelizmente já haviam falecidos há muitos anos. Eram 16 mulas, 14 traziam passageiros e as outras duas traziam as "broacas" com roupa de cama, comida, roupas e barracas para dormir. A comida tinha que ser feita no caminho, pois naquele tempo de Guaporé até aqui era praticamente tudo mato, não havia hotel algum.

Eles levaram 29 dias de viagem, ida e volta.

"Ricordo D'Itália"

SARMEDE, 16 de Janeiro de 1963.

Caros Primos.

Com muito atraso vos respondo. Antes vos lembro que a nossa saúde é ótima; como também quereria esperar de vós todos.

Envio-vos a foto da casa de nossos avós. Esta terá certamente, quinhentos anos. Porém foi modificada um pouco. Lembrai-vos que os meus e vosso bisavós nasceram e viveram aqui, até mais ou menos, os trinta anos. Depois o vosso bisavô foi morar em outra província, que se chama "Cordignano". Depois do ano de 1870, mais ou menos, partiram para as Américas, dada uma concessão gratuita da nação. Desde aquela vez meu pai e meu avô, não tem sabido mais nada até então. Por isso, eu e todos nós nos congratulamos da vossa recordação redescoberta.

Congratulamo-nos ainda que vós sois cinco frades (referindo-se à família Milanez toda, nota do tradutor). Ao invés de todos nós há apenas um (clérigo) pároco que mora em Cordignano e é parente como vocês.

Eu tenho dois irmãos e duas irmãs. Todos com filhos, mas nenhum entrou no seminário.

Um irmão mora aqui a duzentos metros e outro está na América e uma parte, nas províncias não muito longe.

Compras-me que estais bem colocados e teria muito prazer de poder ver os vossos lugares e conhecer-vos melhor. Mas somos adiantados em e idade e a velhice avança e a impossibilidade é muita. Por isso vos convido: Em qualquer ocasião, deveis vir à Itália e deveis vir aqui nos vossos parentes. E por mim, sem dúvida, sereis tratados como primos. Espero, pois, de poder ver-vos.

Por ora, saúdo-vos a todos unidos. Cumprimentos ao Pedro e a sua esposa, augurando-lhes todo o bem.

Este é o meu endereço: Constantino Milanese - Sarmede - Província de Treviso - Itália.

Família de Constantino Milanez, ditos Dall Coll (aqui, dei coi, originário das montanhas) nota do tradutor.

(Texto extraído do livro "FUNDAMENTOS HISTÓRICOS DE CRICIÚMA" de autoria do Sr. PEDRO MILANEZ).

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